sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fifa 2010 terá teste de paternidade e noitadas


O escândalo do filho de Ronaldo chegará ao mundo dos videogames. O novo game da consagrada série Fifa, baseado no Caso Ronaldo, terá teste de paternidade. "Além dos 90 minutos de partida, Fifa 2010 também simula outro fator importantíssimo da vida dos jogadores: as maria-chuteiras", diz Paul Hossack, designer-chefe do game. O game contou com a consultoria dos ex-boleiros Renato Gaúcho e Romário, além de uma extensiva pesquisa fotográfica das casas noturnas e motéis das capitais europeias e brasileiras. "O jogador pode virar a noite numa balada atrás de cachorras, bebendo vodca com energético e fumando, mas isso vai influenciar em seu desempenho no dia seguinte". Hossack, entretanto, deixou escapar que há um "macete" para evitar ser tirado da Seleção Brasileira. "É só puxar o saco do Ricardo Teixeira. Estamos pensando em criar um botão só para isso".

Outra inovação que promete agradar os apreciadores de jogos de estratégia são os testes de paternidade que os jogadores são intimados a fazer. "Se ele recebe a intimação do juiz para fazer o teste antes da partida, seu rendimento vai cair", diz Hossack. As atenções na coletiva de imprensa que apresentou o game se voltaram para a representação da versão virtual do jogador do Corinthians. Tudo por causa de um boato quanto às preferências do Ronaldo "virtual". "Não posso falar muita coisa", disse Jayson Zucher, diretor de marketing da Electronic Arts. "Mas posso garantir que o jogo será bastante realista. Tivemos que fazer uma mulher com um molde especial para as noitadas de Ronaldo. Adicionamos uma tromba às mulheres virtuais", disse Zucher. Haverá, ainda, um bônus especial, liberado apenas aos jogadores que fizerem 1000 filhos.

Que massa! O Kaká vai arrebentar nesta edição.

Fonte: www.bf2brasil.com

Os loco lá da fronteira

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Precisa de tanto?

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) informou hoje que o que um pobre gasta em um ano é o mesmo gasto por um rico em três dias. A constatação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que divulgou a análise com base nos dados apresentados na semana passada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) relativa ao ano de 2008.

A constatação do Ipea só reafirma o que vivemos todos os dias. Recentemente o município onde resido, Lajeado, figurou como a terceira melhor cidade para se viver do Rio Grande do Sul em um destes levantamentos que levam em conta uma série de fatores - desenvolvimento econômico, social... Pois bem, outros indicativos que demonstram a tal da pujança de Lajeado é que para cada 1,5 habitante há um veículo ou que a cada ano surgem mil novas construções. Em resumo, Lajeado é uma cidade em crescimento vertiginoso.

Mas mesmo em uma cidade bacana de se viver, muita gente apenas sobrevive. Enquanto abastados acumulam quatro, cinco veículos nas garagens, milhares de pessoas vivem em bairros afastados do Centro, em espécies de guetos. Em sub-habitações e com subempregos, estas pessoas estão condenadas ao subdesenvolvimento.

E por mais que procriem programas sociais, a situação não muda. Em uma cidade onde uma única indústria precisa de três mil peões para cortar frango e porco, fica difícil falar em igualdade social. Obviamente o problema não é de Lajeado. Neste pacote entram questões como regime econômico e modelo de produção favorável à desigualdade, falta de investimentos na educação, corrupção... Também não defendo a igualdade a cabresto. Isto seria tirania.

O que realmente faz os butiás caírem do meu bolso é o que leva um rico a gastar em três dias o que um assalariado leva um ano para conseguir? Não tenho nada a ver com a grana dos outros, mas é preciso tanto para viver bem e ser feliz? Tem gente que não satisfeita com uma televisão na sala, uma na cozinha e uma em cada um dos quatro quartos instala outra no banheiro. Tem gente que não satisfeita com dois carros, compra um para cada filho – fora as motocicletas que são a diversão do final de semana. Tem gente que não satisfeita com um quarto de hóspedes precisa de pelo menos mais três – vá que resolva transformar a casa em uma pousada, né?

Concluo com palavras da Martha Medeiros, que em uma recente crônica publicada na ZH lascou essa:

“Temos gastado muito e nos dado pouco valor”.

Aprende Ana Carolina

Exposição indevida

Três delegados cearenses foram exonerados por causa da exposição de presos para a imprensa. A medida foi tomada após a Ordem dos Advogados do Brasil recomendar ações que garantissem o direito de imagem dos detidos. Longe de defender eventuais criminosos, concordo com a medida.

Tem que acabar com esta palhaçada de colocar a foto 3X4, o nome e o RG do suspeito.Muitas vezes o chamado flagrante das autoridades é forçado. O cara está com cinco gramas de crack e é preso como traficante. Depois a Justiça revoga a prisão porque o sujeito é usuário. Mas daí já era. Daí já saiu a foto do chapado, o nome dele e o apelido no jornal.

O problema é que geralmente só se atinam para este descalabro quando a Polícia Federal algema um banqueiro ou um ex-prefeito de certa capital paulista. Os Zé Oreia, Mijão, Peidinho da vida podem ganhar a famigerada notoriedade. Afinal, codinome de marginal e jeitão de pobre eles já possuem – requisitos indispensáveis para figurar nas páginas policiais. Pura hipocrisia da nossa “catigoria”, pelo menos de boa parte dela.

* Mais no www.comunique-se.com.br

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Vida bandida

Tinha lá meus seis, sete anos quando resolvi me bandear para o mundo do crime. Movido pela curiosidade e pelo diabinho que ficava no meu ouvido esquerdo, primeiro meti um Danoninho no supermercado. Na hora de passar pelo caixa, uma tia que me acompanhava percebeu que sairia com o Danoninho embaixo do braço.

-Gui, meu anjo, tem que pagar, disse minha ingênua tia.

- Ah é, respondi com carinha de querubim.

O infortúnio da primeira tentativa só serviu de estímulo para minha vida bandida. Dias depois, munido de um casaco dupla face, com 33 bolsos, e com uma frieza no olhar, fui à caça. O alvo: chicletes com figurinhas do Jaspion.

Com agilidade comparável ao mestre Miyagi, enfiei três saquinhos de chicletes dentro de um dos 33 bolsos do casaco dupla face antes que alguém piscasse. Mas daí o anjinho bateu na orelha direita. O remorso foi mais forte e devolvi um dos três saquinhos de chicletes. Tá pensando que iria devolver tudo!? Era bomzinho, e não burro.

Cheguei em casa mais faceiro do que mosca em tampa de xarope com minha mais nova conquista. Mas bem na hora que iria desfrutar do produto do roubo, minha irmã, dois anos mais velha, me deu o flagra.

- Que chicle é esse? A mãe não te deu isso!

- Eu, eu... Eu comprei. É meu!

- Comprou nada! Tu roubou eles. Manhêeeee...

Sem ação, fiz o que qualquer um faria no meu lugar. Subornei minha irmã. Em troca de um punhado de chicletes, ela se calou e sepultou de vez minha vida bandida. Afinal, eu sou bomzinho. O anjinho venceu.

Por Ermilo Drews

Marrom

Dica de leitura

Folgas forçadas levam o sujeito a inventar algo para fazer. Daí fui ler, ora bolas. E foi lendo a versão tupiniquim do Le Monde que revi meu conceito sobre a legalização das drogas. Sempre fui contra, mas na edição de setembro da revista são apresentados dez argumentos daqueles que defendem a liberação das drogas. Para quem quer ter acesso a uma outra visão sobre o assunto, sem cair no estereotipo de defensor da maconha, recomendo a leitura. A revista custa R$ 8,90 e com sorte você encontra em algumas das bancas de “Laxoda.”

Clara Nunes/Obsessão

COMO ELIMINAR O AMANTE

O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Invoco a Miss Corações Solitários que costuma fazer morada nesta pobre caveira envelhecida em barris de bálsamo.

Não posso deixá-lo a mascar o jiló do abandono. Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.

A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.

Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente.

Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa, como diria o amigo Marçal Aquino.

Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.

Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça.

Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.

Mato o desgraçado?

Tiro a vida da desalmada?

Vou-me embora pra Tegucigalpa?

Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?

Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio.

Sossega, Amaro.

O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.

Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.

Entendeste?

Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem.

É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.

A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.

Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.

Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.

Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.

Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.

Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.

Ao amante, Amaro, a falta de assunto.

Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.

Ao amante tudo, Amaro, depois me conta se deu certo ou não. Eu aposto.

Xico Sá

Maria Bethânia/O que tinha de ser

Filosofia de boteco

Há duas espécies de patifes: os que admitem ser e nós.

Millôr Fernandes

Atendendo a pedidos

Tristeza do Jeca

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lições sobre aranhas


Li que há uma espécie de aranha, a caranguejeira, que elimina o macho depois do sexo e serve o dito cujo aos filhotes 60 dias depois. Isso mesmo, as arainhas recém-nascidas literalmente comem o pai em sua primeira refeição. Entre os seres humanos a situação não chega a tanto, mas é semelhante. Depois de nascerem os rebentos literalmente comem a carteira do pai, que geralmente morre a míngua.


Ainda assim, este destino é melhor do que o do macho da viúva-negra. Após o rala e rola, o macho perde o bingulim, que fica preso dentro da genitália da aranha – isso não seria vício de linguagem? O coitado do falecido morre sangrando pelo bilau. Dói só de imaginar.

Gaúcho X Paulistas

Causou o maior rebuliço a carta do funcionário público paulistano Sandro Amoroso Pacheco publicada na ZH, dias destes. Em resumo, o sujeito fala mal do churrasco gaúcho - diz que em SP se come um churrasco muito melhor - e daquilo que considera xenofobia gaúcha contra os paulistas. Ainda por cima ele diz que cidades como Porto Alegre, Canoas, Erechim, Santa Maria, Passo Fundo, Carazinho, Pelotas e Rio Grande são todas iguais: todas muito atrasadas.

Tenho um colega, quase paulista, que faz coro com o Sandro, a personalidade mais odiada atualmente do RS, mais do que a paulista e governadora do RS, Yeda Crusius. Ele diz que a gente é ufanista demais, que metade da “Tradição Gaúcha” foi inventada no século passado, coisa e tal.

Bem, fui criado em Cachoeira Grande do Sul, e sou um cara totalmente bairrista. Meu irmão entrou para um CTG ainda guri, meu sogro e meu cunhado usam bombacha usualmente, então sou um gaúcho cercado por esta aura da tradição.

Até curto música campeira, já fui em fandango de bota, bombacha, lenço e sem brinco, como pede o figurino, mas concordo que o ufanismo gaúcho por vezes beira o preconceito – contra homossexuais, caras que usam brincos, paulistas...

Uma vez fui cobrir o lançamento de um programa de inovação tecnológica na universidade da minha região e um deputado, gaúcho, largou essa:

“O gaúcho tem a mania de se achar melhor em tudo, mas hoje não somos melhores nem naquilo que éramos.”

Acho que o nariz em pé deixa a gente com uma visão restrita. Mas, daí dizer que no RS tudo é atrasado, que aqui é o inferno na terra, são outros quinhentos. Isso no mínimo é despeito, se não xenofobia contra gaúchos.

Já sobre a culinária paulista ouço falar muito bem, mas pouco conheço. Na única vez que estive na capital paulista pedi um Xis Picanha, que custou R$ 15, não veio nem prensado e a picanha era patinho ou coisa parecida. Espero que o churrasco em São Paulo não seja tão ruim e nem tão caro quanto um simples Xis. Como se vê, há coisas boas e ruins em qualquer rincão.

Tolerância minha gente, tolerância.

sábado, 19 de setembro de 2009

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

Não, ela não

De repente o coração deu um sobressalto. A voz engasgou e eu parei de piscar. Um filme percorreu cada neurônio do meu cérebro. Os olhos captavam aquela imagem, o cérebro codificava a informação, mas um nó no peito me gritava que diabos era aquilo!? Não, não ela. Ela não. Todas menos ela.

Prematura, nasceu como um ratinho albino. A pele branca como a neve reluzia as veias azuizinhas. Era um monstrinho. Ainda assim aquele monstrinho me encantou. Não parava de beijar aquele ratinho feioso. Talvez por isso o ratinho feioso ficou resistente aos meus beijos.

E neste tira e puxa o ratinho cresceu. Lá pelos 8 anos começou a tomar sustagem. O roedor virou um pequeno hipopótamo. Começou a devorar tudo que aparecia na frente. Veio a adolescência e com ela a fase do bicho preguiça, a fase Emo e mais recentemente a do urso panda – uma espécie de bicho preguiça Emo.

Mas veio o dia fatídico. O dia em que todo homem zeloso como eu deseja postergar. O meu pandinha, a minha irmã caçula, de apenas 18 aninhos, N-A-M-O-R-A-N-D-O?

E pior do que o ato em sim foi a indiferença com que eu, o irmão mais velho, fui tratado. Não fiquei sabendo através de um anúncio formal, nem mesmo de uma ligação ou de uma carta com um pedido de desculpas. Fui informado como qualquer outro. Estava lá, no Orkut, namorando. Em letras minúsculas, como se o fato não exigisse letras garrafais.

Mas tchê, onde este mundo vai parar!?

A minha irmã, a caçula, que eu vi crescer, N-A-M-O-R-A-N-D-O?

Não, não ela. Ela não. Todas menos ela.

Por Ermilo Drews

Classificados

“Diploma não é necessário. Para trabalhar como Jornalista, faça um curso rápido”. É dessa maneira que a empresa Cursos 24 Horas anuncia treinamento para pessoas interessadas em trabalhar com jornalismo na Internet. Com custo de R$ 40 e duração de 45 horas, o curso promete formar “um Cyber Repórter de sucesso”.

Por que eu não comprei um carro zero?

* Trecho da matéria de Sérgio Matsuura. Mais no site www.comunique-se.com.br

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pra que me pariu

Vicei minha mãe. Sim, a velhinha caquética da minha progenitora encontrou um outro mal além do cigarro: este blog. Tá viciada em ler porcaria.

Pois é em homenagem à minha mãe que vou escrever sobre as mães...e os traumas que estas pessoinhas do mal causam em seus rebentos. Sim, porque tudo é culpa da mãe.

Por exemplo, tem um colega meu que deve ter ficado com tanto trauma da mãe dele que precisa colocar o celular para despertar no dia do aniversário dela, se não esquece. Já o filho de uma colega minha foi esquecido dentro do carro. O detalhe é que a pobre criança tem uns três anos. Tudo bem, foi o pai que esqueceu do filho dentro do carro, mas sabemos que nenhuma mãe em sã consciência deve confiar às cegas no pai do seu filho. Parece que depois do incidente, o guri só vai à creche de bicicleta de rodinha. Nem chega mais perto da garagem.

Mas e o que dizer da minha mãe. Aquela diabinha já tentou me esfaquear, sabiam? Sim. Só porque eu disse, umas três dezenas de vezes, “Tu não me pega, tu não me pega”, ela tocou uma faca de cozinha contra este anjinho que vos fala. Ela jura de pé junto que só quis me assustar, que mirou na porta da cozinha, mas eu tenho minhas dúvidas. E na vez que ela quebrou um ovo na minha cabeça só porque eu disse, umas três dezenas de vezes, “Tu não me acerta, tu não me acerta.”

Com o passar do tempo, a vileza dela só piorava. Um belo dia de verão, ao me flagrar no banheiro comendo umas balinhas azedinhas, ela me puteou. “Guri, tu tá maluco comendo uma cartela inteira de aece!” Vocês acreditam que ela começou a guardar as balinhas azedinhas no topo da prateleira!?

E quando ela me obrigou a tomar banho à meia-noite, em pleno inverno. Justo quando eu estava prestes a bater o recorde sul-americano de mais tempo sem banho. Mas ela foi capaz de coisa muito pior. Até me dá calafrios de lembrar.

Para baixar a febre nada de xarope, comprimido, injeção ou simpatia. Não meu caro. Bastava o termômetro marcar 39 graus para eu sofrer um atentado violento ao pudor. Sim, minha mãe era fã de supositório. Até acho que proibiram a venda desta indecência.

Mas eu superei o episódio da faca, do ovo, das balinhas azedinhas, do banho, até (quase) do supositório, e me vinguei.

Viciei minha mãe em porcaria!

Por Ermilo Drews

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não se brinca com o vício dos outros

Quer me ver enlouquecido dentro da redação é me deixar sem café. Encaro chefe de mau humor, fonte mala, tempestade, 18 horas direto, até salário atrasado eu aceitaria... Mas não queiram que eu trabalhe sem café. Sem café não! Fico parecendo um ratinho destes de laboratório, inquieto, indo de um lado para outro. E eu não sou o único viciado no pretinho, não.

Antigamente mandavam só uma térmica, bem “pequetitinha”, para a redação. O pessoal pegou gosto e começaram a mandar uma daquelas térmicas “anabolizadas”, estilo Coca-cola de 3 litros. Hoje em dia são pelo menos duas destas e mais a cafeteira do jornal, que trabalha mais que a gente.

Alguns fracos, como minha chefe, preferem café descafeinado. Mas cá entre nós que isso seria o mesmo que admitir cerveja sem álcool. Entretanto, isso se releva. Afinal somos pessoas civilizadas. Viva a diferença, diz o da coluna do meio!

Intolerável mesmo é o que um ex-colega meu fez. Em um dia fatídico, aquele animalzinho de teta, estabanado, estúpido mesmo, quebrou a cafeteira. Dá para imaginar como os ratinhos viciados da redação ficaram?

É por isso que eu me solidarizo com os funcionários gaudérios da prefeitura da minha cidade. Há nove meses a prefeita, em um ato ditatorial, proibiu o mate nas repartições públicas. Tudo bem, podia ser pior. Podia ser o café. Mas sabemos que para o gaúcho, seja de Porto Alegre ou de Uruguaiana, chimarrão é tão sagrado quanto café.

Pois, agora, passados nove meses, a prefeitura pariu uma normativa liberando o chimarrão durante a Semana Farroupilha, que termina no domingo, 20 de setembro. Mas vem cá, uma semana e depois o nada pra sempre?

Não se brinca com o vício dos outros!

Por Ermilo Drews

Filosofia de boteco


"A hierarquia é como uma prateleira: quanto mais no alto, mais inútil."

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Rescaldos da Festa à Fantasia

Na cidade onde moro tem um megaevento que reúne um bando de gente fantasiada de tudo quanto é rincão do RS. O nome é tri-original, Festa à Fantasia. Bem, esta historinha, que juraram de pé junto ser verídica, aconteceu no último sábado, dia da tal festa e dia em que uma enchente atingiu a cidade.

Já eram altas madrugadas quando um cidadão avista um sujeito atravessando o parque da cidade. Tudo normal, se o parque não estivesse submerso e se o tal sujeito não estivesse fantasiado – não apurei se a fantasia era de mergulhador.Ao avistar o sujeito nadador, o cidadão pergunta perplexo:

- Tá louco! O que tá fazendo aí?

- Tô indo pra casa.

- Mas onde tu mora?

- Na Rua Dona Laura.

- Não conheço. Onde fica!?

- Em Porto Alegre.

Para quem não mora em Lajeado e desconhece a geografia do Rio Grande do Sul, a capital dos gaúchos fica a uns 110 quilômetros de distância. São os rescaldos de uma festa onde a fantasia rola solta.

A de sempre

— Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se.

— O preço?

— Não. A variedade. O embaras du choix.

— Mas se você já estava acostumado com uma...

— E as novas que aparecem? Em cada Estado surge uma fábrica, se não surgem duas. Cada qual oferecendo diversas qualidades. Você senta no bar de sua eleição, um velho bar onde até as cadeiras conhecem o seu corpo, a sua maneira de sentar e de beber. Pede uma cervejinha, simplesmente. Não precisa dizer o nome. Aquela que há anos o garçom lhe traz sem necessidade de perguntar, pois há anos você optou por uma das duas marcas tradicionais, e daí não sai. Bem, você pede a cervejinha inominada, e o garçom não se mexe. Fica olhando pra sua cara, à espera de definição. Você olha para cara dele, como quem diz: Quê que há, rapaz? Então ele emite um som: Qual? Você pensa que não ouviu direito, franze a testa, num esforço de captação: qual o quê? Qual a marca, doutor? Temos essa, aquela, aquela outra, mais outra, e outra, e outras mais. . Desfia o rosário, e você de boca aberta: Como? Ele está pensando que eu vou beber elas todas? Acha que sou principiante em busca de aventura? Quer me gozar? Nada disso. O garçom explica, meio encabulado, que a casa dispõe de 12 marcas de cerveja nacional, fora as estrangeiras, sofisticadas, e ele tem ordem de cantar os nomes pra freguesia. Até pra mim, Leovigil? pergunto. Bem, o patrão disse que eu tenho de oferecer as marcas pra todo mundo, as novas cervejas têm de ser promovidas. Não mandou abrir exceção pra ninguém, eu é que, em atenção ao doutor, fiquei calado, esperando a dica... Não quis forçar a barra, desculpe.

— E aí?

— Aí eu disse que não havia o que desculpar, ordens são ordens e eu não sou de infringir regulamentos. Os regulamentos é que infringem a minha paz, freqüentemente. Mas para não dar o braço a torcer, nem me declarar vencido pela competição das cervejas, concluí: Leovigil, traga a de sempre.

— Não quis dizer o nome?

— Não. Minha marca de cerveja — "minha garrafa", digamos assim, pois a individualidade começa pela garrafa — passou a chamar-se "a de sempre". Não gosto de mudar as estruturas sem justa causa, nem me interessa dançar de provador de cerveja, entende?

— Mas que custa experimentar, homem de Deus?

— Só por experimentar, acho frívolo. Os moços, sim, não encontraram ainda sua definição, em matéria de cerveja e de entendimento do mundo. Saltam de uma para outra fruição, tomam pileques de ideologias coloridas, do vermelho ao negro, passando pelo róseo, pelo alaranjado e pelo furta-cor. Mas depois de certa idade, e de certa experiência de bebedor, você já sabe o que quer, ou antes, o que não quer. Principalmente o que não quer. E é isso que os outros querem que você queira. Tá compreendendo?

— Mais ou menos.

— Na verdade, não há muitas espécies de cerveja, no mundo das idéias. Mas os rótulos perturbam. Uns aparecem com mulher nua, insinuando que o gosto é mais capitoso. Bem, até agora não vi rótulo de cerveja mostrando mulher com tudo de fora, mas deve haver. Mulher se oferecendo está em tudo que é produto industrial, por que não estaria nos sistemas de organização social, como bonificação?

— Você está divagando.

— Estou. Divagar é uma forma de transformar pensamentos em nuvem ou em fumaça de cigarro, fazendo com que eles circulem por aí.

— Ou se percam.

— E se percam. Exatamente. 0 importante não é beber cerveja, é ter a ilusão de que nossa cerveja é a única que presta.

Sujeito mais conservador! Ou sábio, quem sabe?

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de setembro de 2009

Wander Wildner/La canción inesperada

Na Noite Terrível

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem sperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 12 de setembro de 2009

Acabem com eles!

Recentemente, Boqueirão do Leão, uma cidadela de oito mil habitantes da região vizinha à minha, foi atacada pela segunda vez em um mês por assaltantes a banco. O saldo final deste último ataque foram dois bandidos mortos, uns quatro presos, outros quatro escaparam, e o dinheiro foi recuperado. Na outra ocasião, pelo que recordo, os bandidos fugiram com o dinheiro, e um morador acabou morto com um tiro disparado por um policial que o confundiu com um bandido.

Voltando. Esta semana fui ao banco pagar uma conta com um dia de atraso. Já estava de saco cheio por minha mulher ter pegado as contas – sou eu o zelador das contas em casa – e me avisado da existência delas um dia depois do vencimento. Fiquei mais de saco cheio ao verificar que no boleto constava uma taxa de R$ 3,50 por serviços bancários. Se você for ao Procon ou coisa do tipo vai saber que isto não pode não.

Bem, com cara de bobo e molhado como um pinto – maldita chuva - aguardei chamarem minha senha. Já despejava notas de R$ 50 para o caixa, quando qual minha surpresa!?

– Precisa de mais uma, disse o bancário.
- Hein?
- Tem multa de 10% pelo atraso.
- Por um dia!?
- Ahã.

Foi assim que este bobo perdeu quase R$ 50. Tá certo, quem instituiu os arbitrários 10% foi a safada da imobiliária, mas ainda assim não gosto de bancos. Há cerca de uns cinco anos descobri que tinha uma senhora dívida em um destes recolhedores de dinheiro. Havia, anos antes, encerrado minha conta, pago o que me disseram para pagar, mas por um erro de cálculo do sujeito os juros foram rolando, e só me avisaram quase dois anos depois. Sem o comprovante me ferrei.

Com a minha mãe foi pior. Ela financiou nosso primeiro computador no banco, quitou todas as parcelas e o banco cobrou de novo. Mas cadê o comprovante? Perceberam que a fruta não cai longe do pé.

E da missa isso é a metade. Não querendo menosprezar os ataques a banco nem as vítimas deles, mas basta dar um giro pelo interior para ficar sabendo de histórias de colonos arrolados em dívidas que se enforcaram. Diante disso, recorro a uma provocação do escritor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

“Que é roubar um banco em comparação com fundar um banco?”

Antes que mentes maldosas pensem que faço apologia aos assaltos a bancos, digo que não curto faroeste. Para acabar com o meu problema e com o problema de Boqueirão do Leão é simples.

Acabem com os bancos!

Por Ermilo Drews

Chico Buarque/Construção

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Dia enfadonho

Estou meio paranóico em manter o blog sempre atualizado, mas nem sempre a inspiração vem. Ainda mais com um tempinho feio destes na rua. Esta chuva que desanima o cristão. Só serve para dar sono.

Mas o pior nem é isso. Para um sujeito “descarrosado” como eu, exercer o direito de ir e vir num dilúvio destes é uma provação. E para enfrentar esta guerra tenho apenas um estilingue.

Por que não fabricam mais guarda-chuvas de tamanho GG? Sabe, aqueles tipo guarda-sol fúnebre. O meu cobre só metade do corpo. Se puxo para a direita, o braço esquerdo fica ensopado. Se puxo para a esquerda, o lado direito fica desprotegido. E as pernas!? Como sofrem as pernas. Ainda mais se a chuva vem de frente, empurrada pelo vento. Daí a solução é posicionar o guarda-chuva em direção ao horizonte, e enfrentar o inimigo.

Mas esta batalha toda só acontece se o vento permitir. Não raro uma ventania banca Átila, o Rei dos Hunos, e termina com a briga de início. O guarda-chuva vai para a lixeira, claro. E a situação fica ainda pior. Fora a água que cai, tenho que cuidar da água espirrada pelos motoristas sequinhos, das poças que se acumulam pelas calçadas e do meu tênis furado que fica ensopado a cada dia de chuva.

Olha! Desconfio que a inspiração voltou.

Por Ermilo Drews

Prazeres simples

"Adoro os prazeres simples. São o último refúgio das pessoas complicadas."

Oscar Wilde

Histórias do “Seu” Pedro

No jornal onde trabalho tem um motorista chamado Pedro. É um aposentado de pouco mais de 60 anos, mas com semblante e histórias que lhe conferem um século, pelo menos. Naturalmente todo mundo lasca um “Seu” antes do Pedro.

Pois este vivente já entregou leite para metade da região onde moramos – cerca de 300 mil habitantes - e já percorreu cada rincão dela de bicicleta quando guri. E diante de tamanha vivência, frases como “Antigamente isto tudo aqui era mato” ou “A fábrica que mais cresce no mundo é a humana” são de praxe.

Pois bem, vinha Seu Pedro e eu pela principal rua da cidade onde moro, quando ele tem mais um de seus momentos nostálgicos:

- Aqui – apontando para uma esquina – foi o primeiro bar de Lajeado.

- Sei, onde o senhor vinha beber todo o final de semana.

- Não, todo o dia.

- O quê? Bebia todo o dia?

- Não, não. Eu entregava leite todo o dia.

Ah, tá. Fingi que acreditei.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sexo na cabeça

O café excessivamente quente, em copo de plástico, reduz em dois terços a potência sexual do homem: 1º queima os dedos; 2º queima a língua.

Bingulim é igual carro, se você não sabe manobrar, é melhor você ter um pequeno.

Sexo é como vestibular, não importa a posição, o importante é entrar!

Não existe esse papo de colocar só a cabecinha. Pênis não tem ombro.

Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.

Sábio Homer disse:


"Beber é coisa pra adultos... e crianças com carteiras de identidade falsa."


Homer Simpson

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Acredito em destino

- Ele morreu.

- Não pode.

- Como?

Coração - pensei.

- Um ônibus o atropelou na calçada.

- O motorista teve um mal súbito e desmaiou.

Desliguei a boca do fogão, enfiei meia dúzia de peças de roupa na mala e, mudo, fui para a rodoviária. Três horas depois estava no velório. Continuava mudo.

Este é o resumo do final da noite de terça-feira retrasada e do começo da madrugada de quarta. Ele em questão é um grande amigo da minha família. Estou para conhecer pessoa mais religiosa, daquelas que frequentava todos os dias a missa das 6h30min. Um grande sujeito.

Mas aonde quero chegar com esta conversa? Até esta noite não levava fé nas frases do tipo: é o destino ou Deus quis assim. Para mim o que acontecia com as pessoas era resultado da negligência, incompetência, mérito delas ou daquelas que cruzavam seu caminho. Nos últimos tempos encarava a vida como uma espécie de selva em que sempre precisava estar ligado em 220 Volts ou alguém passava por cima.

Mudei meu pensamento. Ainda acredito que a negligência, a incompetência e o mérito são fatores preponderantes para a maioria dos rumos que nossa vida segue. Mas, agora, acredito também em expressões como “é o destino”.

Ele estava na calçada. Na calçada! O condutor não foi imperito ou desajuizado. Simplesmente apagou sobre o volante, guiando o ônibus sobre painéis de publicidade, árvores e pessoas. Supondo que o motorista tivesse um problema de saúde que não foi constatado pela empresa, ainda assim é muita matemática. É mais simples acreditar em destino.

*Da série "Velhas Crônicas"

O poder das mulheres

"Uma mulher, que não seja estúpida, cedo ou tarde encontra um farrapo humano e tenta salvá-lo. Às vezes consegue. Porém, uma mulher, que não seja estúpida, cedo ou tarde encontra um homem são e reduze-o a um farrapo. Sempre consegue."

Cesare Pavese

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Recomeço de semana com Cartola

Desventuras de um “motorista” inexperiente

Desde criança sofro com o efeito retardado. Comecei a falar só lá pelos 3 anos. Larguei o bico – ou se preferir chupeta – também tarde. Aprendi a amarrar os tênis tarde. Nunca aprendi a nadar. Comecei a beber depois dos 18 anos. E assim seguiu a minha vida tardia.

Mas talvez o que resuma esta minha vida com efeito retardado seja minha relação com o automóvel. Ao contrário da maioria dos homens machos, nunca me interessei por carburadores, motores, coisas do tipo. Sempre gostei de andar de ônibus. Por esta falta de vontade, por falta de grana e por medo, tirei a carteira aos 25 anos.

No entanto, a conquista da habilitação não me tornou um habilitado. Praticamente não dirigi no último um ano e meio. Não lido bem carros. É como minha relação com os cães. Eu tenho medo deles e eles sabem disso. Resultado: só me ferram.

Neste feriadão resolvi bancar o homem macho e dirigi por duas oportunidades. Na primeira delas, no interior, tudo seguia bonitinho. Mas no meio do caminho tinha uma pedra. Na verdade vários cascalhos em uma subida íngreme. Se não fosse um tiozinho calçar o carro com dois pedregulhos, estaria naquele morro até agora. Foi um tal de liga carro, apaga carro, desce carro, pragueja carro, xinga a mulher que banca o co-piloto. Um horror.

Passadas estas dificuldades iniciais, neste feriado de Independência decidi mostrar para o carro velho do meu pai quem é D. Pedro e quem é a mula. Confesso que por vezes os papéis se inverteram. O problema é que não lido bem com subidas nem com placas de pare.

Seria tudo mais fácil se depois de arrancar só se seguisse reto. Mas não, é um tal de arranca, bota segunda, bota terceira e para. Olha pros lados, engata a primeira, acelera. Na sinaleira, então, suo frio. E por uma destas peças do destino, no último semáforo, uma viatura da Brigada Militar para atrás de mim. Logo de mim! Apaguei duas vezes o maldito do carro.

A minha esperança é que minha relação com o carro melhore conforme aconteceu com as demais “limitações”. Hoje ato tênis com louvor, falo e bebo como poucos. É errando que se aprende, né!?

Por Ermilo Drews

domingo, 6 de setembro de 2009

Pra dançar no putedo

A vida havia perdido o sabor

A minha bisavó tinha mais de 90 anos quando um médico lhe deu uma notícia fatalística. “Se a senhora quiser chegar aos cem anos não pode mais comer fritura”, disse o doutor, em tom de reprovação.

Aquela sentença era a própria morte em vida para minha bisavó. Como uma pessoa que comia três ovos fritos dia sim, outro também, viveria sem o estalar da banha de porco?

Na casa dos meus avós todos faziam coro com o médico. “Viu vó, tem que melhorar a alimentação”, pregava minha mãe, naquela época uma moçoila de pernas de fora. “Viu mãe, nada de ovo frito”, discursava minha avó. E assim a bisa foi ficando cada vez mais encurvada. Estava entregue. O que ela mais amava lhe foi tirado.

Mas de uma hora para outra, a bisa ressurgiu alegre e faceira. Todos pensaram que a matriarca da família finalmente havia entendido e assimilado a orientação médica.

Uma noite, começo de madrugada, minha mãe chegou em casa vinda da faculdade. Como neta preocupada, foi ver se a vó estava bem. Abriu silenciosamente a porta do quarto quando teve uma visão que misturava surpresa e comoção. Com um pequeno fogareiro, minha bisa preparava o elixir da felicidade.

“Vó, a senhora tem comido ovos todos estes dias”, inquiriu minha mãe. Com cara de menina levada, a matriarca da família acenou com a cabeça e disse: “Não consigo viver sem. Se é para me tirarem o único prazer que ainda me resta, prefiro morrer.”

Daquele dia em diante minha bisa continuou comendo seus ovos fritos todas as noites, agora, com o aval e o suporte da minha mãe. E assim foi por anos a fio. A mesma sorte não teve o ex-jogador do Grêmio Paulo Ramos. Com problemas cardíacos foi afastado daquilo que mais lhe dava prazer. Assim como minha bisa, ele pagou para ver. Ao contrário dela, pagou com a mais valiosa das moedas. Morreu aos 24 anos, ao lado daquela que lhe dava o sentido da vida, a bola.

Por Ermilo Drews

Surreal: Cascavelletes na Angélica

sábado, 5 de setembro de 2009

Manifesto de um descontente

Sentimentalismo barato, denúncias vazias, assuntos replicados, matérias requentadas, factóides, incoerência, apego ao furo em detrimento à apuração, preguiça, vaidade. Sejam grandes ou pequenos, os jornais viraram uma coisa só, uma coisa mal feita. As redações tornaram-se chão de fábrica e a notícia transformou-se em artigo de produção em massa. Isto em um ambiente repleto de pessoas que têm o rei na barriga. Virei um técnico, um operário da notícia. Para escrever ligo agora o piloto automático. “Emburreci”.

E o que desalenta ainda mais este cristão é que a tendência é que as coisas piorem. A mão de obra formada nas faculdades é cada vez pior. Gurizadinha com discurso comunista na ponta da língua, mas que desconhece informações básicas, como o nome dos senadores que representam o Estado.

Jornalistas que não lêem, não escrevem, não questionam, não pensam. Leitores que não lêem, não escrevem, não questionam, não pensam. A mediocridade impera e o meu desalento, e minha inércia, só aumentam. Será que isso tem fim?

Não estou pensando em nada

Não Estou Pensando em Nada

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)

Mais Júpiter Maçã

Um lugar do caralho

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Botequim: onde os gênios se encontram



Cartola, Divina Dama

A oportunidade surge na crise

Com a proliferação dos downloads, o CD está pagando o preço que o vinil teve de pagar com o advento dele, o CD. Resultado, as lojas especializadas estão se virando como podem para desencalhar seu estoque. E foi por causa deste vai e vem de mercado que dediquei 30 minutos da minha manhã de hoje a garimpar CDs encalhados. Cada um “vendido” pela bagatela de R$ 1,99. Isso mesmo, em tempos de twitter, download e blogs, o CD está mais barato do que o antes esquecido vinil.

Resultado: trouxe sete achados para casa. Na lista tem tributos a Little Richard, Nei Lisboa e Chuck Berry. Achei até o álbum de um tal de Cilico, sujeito frequentador da Portela, e que conseguiu reunir Beth Carvalho, Monarco e a Velha Guarda da Portela. R$ 1,99 bem investido, garanto.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um casal estranho

Recentemente li uma crônica do David Coimbra que se baseava em um causo que aconteceu com um sujeito em Santa Catarina. A história, real, era a seguinte. O cara esqueceu o aniversário da mulher, que lhe pentelhou o dia todo. Já de saco cheio da chatice da esposa, o pobre homem jogou seu carro contra o prédio da Delegacia de Polícia da cidade. E mais. Implorou para ser preso. Só assim iria se livrar das reclamações da mulher.

Até aí tudo bem. Todo homem sabe que mulher é chata mesmo. Assim como sabe que macho que é macho faz de tudo para não ouvir as abobrinhas da esposa, inclusive ser preso. Até mesmo lavar louça e roupa, fazer comida e, de vez em quando, esfregar o chão. Tarefas que eu, como bom macho e cachoeirense, faço. Ou vocês pensam que vou dar a chance da minha senhora se achar dona da verdade e ficar reclamando, me chamando de vagabundo.

Mas voltando ao título desta crônica... A mulher nasceu para chatear o homem. O homem nasceu para evitar as chateações da mulher. Mas um casal conhecido meu e dos meus colegas é diferente. É estranho. Aparentemente, eles não seguem esta regra universal, desde Adão e Eva. Sim, eles não brigam.

Duvida? Então vai lá. Esta semana, a mulher – que é minha colega de trabalho – lembrou-se que fazia dois anos que ela e o marido estavam casados. Não, não. Ela lembrou que um dia antes fazia dois anos que ela e o marido estavam casados. Tanto ela, quanto ele esqueceram o aniversário de casamento.

Tá, homem esquecer aniversário seja lá do que for é natural. É a essência do homem-macho-cachoeirense. Mas a coisa começa a ficar estranha quando a mulher, que se prende aos menores detalhes, esquece do ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO. Mulher não esquece de nada, menos ainda do ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO.

Mas o mais estranho de tudo não foi o esquecimento. Sobrenatural foi que esta colega de trabalho ligou para o marido e, quando eu jurava que ela iria usar todos os palavrões relacionados pelo Aurélio, contou com voz de porta-voz da República sobre o lapso de memória e deu um singelo sorriso. Nem justificativa, nem desculpa esfarrapada o marido precisou dar. Se não fosse homem-macho-cachoeirense ficaria até com medo.

* Da série "Velhas Crônicas."

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Maria Bethânia/Negue

Meus portugueses preferidos - I


Fernando Pessoa

"Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Meus portugueses preferidos - II


José Saramago

"Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.


Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?


Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. "

José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'

Meus portugueses preferidos - III


Eça de Queirós

"Estamos perdidos há muito tempo. O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram.A classe média se abate progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Por toda a parte se diz: o país está perdido!... Algum opositor do atual governo?... Não!"

*Este texto se refere a Portugal. Foi escrito por Eça de Queirós, em 1871.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Como é bom ser fresco

Fui cortar o cabelo nesta tarde quente de terça-feira e cheguei à conclusão que sou fresco e, o pior, gosto disso. Leia e me entenda.

No tempo de guri, lá em Cachoeira do Sul, Centro do RS, cortava meu cabelo no barbeiro em frente ao trabalho do meu pai. Era um senhor forte, de cabelos brancos, que só usava tesoura e navalha. Naquele tempo não havia esta “frescurite” de cabeleireiro, mechas, luzes, escova progressiva... Havia no máximo aqueles pentes de guardar no bolso da camisa.

Chegava já com o discurso pronto. “Corta que nem o do meu pai.” E assim foi por anos. Na pré-adolescência dei um passo importantíssimo na minha vida. Mudei de barbeiro! Por R$ 4 o sujeito passava até talco para reduzir a irritação com os pêlos “decepados.” Assim foi por anos a fio.

Veio a crise da adolescência e “viadei”. Um belo dia “abichornei” e fui fazer luzes no cabelo. Fui ao salão que minha mãe frequentava, com direito a hora marcada e tudo. Ui! Cheguei sem jeito ao tal “instituto”. Fiquei mais sem jeito quando a cabeleireira enfiou uma touca verde na minha cabeça e começou a puxar uns punhados de cabelos com uma pinça. Fiquei a cara da Medusa, aquela figura mitológica grega que tinha o penteado cheio de serpentes. Lembra, né? Bem, o que importa é que para fazer a tal de luzes eu precisava ficar como a Medusa. E assim foi feito. No final do processo tinha até direito a lavar o cabelo, com xampu e condicionador.

A fase das luzes logo passou, para alívio do meu pai, mas desta época em diante peguei gosto pelas mordomias capilares. Rumei para Lajeado, a 150 quilômetros de Cachoeira do Sul, e aqui arrumei um novo barbeiro. Antes um parêntese, para ser barbeiro o sujeito precisa ter jeito de homem e usar navalha. Fecha parêntese, arrumei o barbeiro por R$ 10. Beleza!

Pensei que finalmente voltaria às origens e cortar cabelo feito homem. Mas ao final do primeiro corte, o barbeiro com cara de homem e de navalha me pergunta. “Quer que eu lave o teu cabelo?” Ui! Não resisti! Meio sem jeito respondi que sim, acenando com a cabeça. Foi um alívio para o meu corpo e para minha alma.

Confesso que até um homem macho como eu se permite às “frescurites” da vida vez que outra. Talquinho para combater a irritação, nunca mais. Eu quero um barbeiro que corte, lave e seque. Ah, e passe gel.

Por Ermilo Drews

Filosofia de boteco

"Opinião é como bunda. Todo mundo tem uma, dá quem quer."

Oscar Wilde