segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Eu tenho um caso!

SIM, SIM, SIM! Sim, eu confesso! Tenho um caso. Sim, estou sendo vil com minha “senhora” todos estes anos! Mas, garanto, com a conivência dela. No domingo mesmo estabelecemos um programa matinal. Fomos ao shopping passear, fazer compras, estas coisas de burgueses de Lajeado – até parece. Lá pelas tantas falei para minha “senhora”: - “Este calor pede um chopp!” Dito e feito, fui tomar um chopp.

Eu estava de costas para o objeto de desejo, quando vi outro homem boquiaberto. Ah, meu guri, não tive dúvidas. Virei e fixei o olhar no objeto de desejo. O cara que vendia o chopp disse: -“Aqui não pode. Os vigilantes não deixam. Mas ali do lado pode.” Não pensei duas vezes. Esqueci do programa dominical, e fui com mulher e chopp na busca da minha paixão. Em uma sala escura, outros companheiros de vício se entregaram à perdição. Foram quase duas horas cheias de altos e baixos, mas de muita intensidade. Mas no final, que brochada.

Bah, o Grêmio não ganha uma fora de casa. Bosta!

Por Ermilo Drews

domingo, 30 de agosto de 2009

Drummond por Drummond

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Favor não gritar gol

“Goooooooooooooooooooool”, gritava, a plenos pulmões, quando o tricolor dos pampas estufava as redes. Era assim desde a década de 30. Naquela época, ironicamente ele comemorava as defesas do goleiro Lara, o Craque Imortal. Tudo sempre acompanhado pelo radinho de pilha. Sim, naquele tempo futebol era só pelo rádio ou nas manchetes do Correio do Povo.

E foi, com o radinho de pilha, que acompanhou os 35 campeonatos gaúchos, as quatro Copa do Brasil, os dois brasileiros, as duas Libertadores e o Mundial do Renato, com dizia na prosa com os “amigos de farda”. Veio a TV preto e branco, a TV a cores, até chegar nesta tal de LCD full HD. “Quanto mais avançado o negócio, mais letras têm”, pensava. Mas independentemente dos avanços tecnológicos, o radinho sempre estava com ele, seja em casa, nos bares ou no estádio.

“No radinho sei antes”, gabava-se àqueles que o chamavam de antigo. Mas de tanto gritar ““Goooooooooooooooooooool” antes dos telespectadores, o pessoal do bar que frequentava começou a ficar com raiva daquele desaforo. “Este velho não tem simancol”, diziam os mais jovens.

Em uma tarde de sábado, lá foi ele com seu radinho ao bar a duas quadras de casa. Chegou uma hora antes, como de costume, para guardar o melhor lugar. Ligou o radinho, já sintonizado na Gaúcha, e ficou na concentração. Cinco minutos antes do começo da partida, o dono do bar pregava na parede um aviso aterrorizante. “Favor não gritar gol antes da imagem da televisão.”

Tentou argumentar que aquilo era antidemocrático, que feria a liberdade de expressão, que se voltava aos tempos do Costa e Silva. Mas o dono do bar manteve-se inflexível na sua decisão. E o pior de tudo, decisão respaldada pelos “amigos de farda”. Naquele dia triste, o velho mais triste que o dia, só pôde perguntar em voz baixa:

- “Como se segura um grito de gol?”

Ficou sem resposta.

Por Ermilo Drews

* A restrição ao grito de gol já virou norma em pelo menos um bar de Lajeado.

sábado, 29 de agosto de 2009

Eclesiástico 13,20

"Para o orgulhoso a humildade é uma humilhação."

Wander Wildner, o "Highlander dos Pampas"

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Homens X Mulheres

Desde crianças homens e mulheres aprendem sobre as diferenças entre os gêneros. Menino tem “torneirinha” – coisa mais gay – e menina tem “conchinha” – que fofo. A ciência indicou que o homem é mais frio. A mulher, mais emotiva. O homem, mais objetivo. Já a mulher prefere algo mais complexo. O homem não gosta de se prender a um relacionamento. A mulher sempre está em busca de uma relação duradoura, em especial o casamento. Ele prefere passar mais tempo com os amigos. Ela gosta de passar maior parte de seu tempo com o companheiro. Ele não demonstra afetividade em público. Ela quer mostrar a todos o que sente. E assim seguiria esta lista interminável de diferenças.

No meu caso, em menos de 12 horas vivi estas discrepâncias. Ontem à noite saí com minha mulher – meio a contragosto – e um amigo. Jantamos, tomamos umas cervejas e fomos jogar sinuca. Tacada vai, tacada vem, e minha impaciente “senhora”, sentada em um canto do “bar cheio de maconheiros”, segundo ela, dava sinais de cansaço. Não deu outra, como bom cordeiro que sou segui minha pastora.

Hoje pela manhã eu senti na pele o quanto é difícil fazer algo a contragosto. Fomos a pé, em um calorão acima dos 30°C, ao Centro de Lajeado. Bate perna daqui, olha vitrine de lá e ela me arrastou para uma destas lojas que vendem desde meias até jaquetas de neve. Ela experimentava um vestido, pedia a opinião da vendedora 1, da vendedora 2, e a minha, é claro. Experimentava outro vestido, e tudo de novo. E eu ali, refém daquela lunática. Era o único homem na loja, o único, entende? Cercado por mulheres ávidas por compras.
Saco! Se ainda fosse cerveja.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

5 coisas que Homem Macho deve fazer


Dirigir


Beber


Desentupir ralo do banheiro


Trocar resistência do chuveiro


Ter uma furadeira


Bem, nestes quesitos sou meio frutinha. Tirei carteira, mas não dirijo. Quem troca resistência de chuveiro lá em casa é o eletricista. E furadeira é um instrumento que nem imagino como funciona. Pelo menos bebo como poucos e não tenho nojinho para enfiar a mão no ralo. Tudo bem, um pouquinho só de nojinho.


Por Ermilo Drews

5 coisas que Homem Macho não pode fazer


Dançar sozinho (a não ser que esteja bêbado)


Lavar a mão com álcool em gel em tempos de gripe A


Ter letrinha de fôrma. Letra de homem é letra de médico


Ser vegetariano


Recusar uma cerveja

Nestas cinco, eu passei com louvor. Sou verdadeiramente um espécime de Homem Macho. Praticamente o Conan o Bárbaro.


Por Ermilo Drews

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Quando acordei, estava casado

No tempo da minha mãe, casamento tinha véu, grinalda, sim diante do padre, bolo e festa. Hoje em dia, a maioria dos casais deixou isto tudo de lado, mas o principal da vida a dois permanece: a própria vida a dois. Disto não tem como fugir.

Como dizem os antigos, me “ajuntei” há pouco mais de dez meses. Foi meio que sem querer. Éramos namorados, ela morava lá, eu morava aqui, ela arranjou emprego aqui e eu já estava. Portanto, nos pareceu mais natural e lógico dividir um apartamento. Com a divisão do AP veio a divisão das contas, da cama, das tarefas domésticas, dos problemas...

Acostumado a viver 23 anos sem ter que dar satisfação do que fazia, a não ser aquelas de filho pra pai, confesso que a vida a dois me assusta até hoje. Tem vezes que ela sai de casa na maior felicidade. À noite, quando eu chego, um simples “pisão” no chão que ela recém limpou é motivo para reclamação (e das feias). Se não for o chão o motivo da discórdia, é a pia cheia de louça; a tampa da privada aberta; a cama desfeita; a roupa não recolhida; eu que quero comer salame com queijo e ela que quer cozinhar, só para sujar louça pra eu lavar, entre tantas outras picuinhas de quem divide o mesmo espaço.

Diante de tantos obstáculos – isto que não contei da missa a metade – discussões são comuns. No começo eu estressava, mas agora lido melhor com as “trocas de farpas.” Aos poucos estou conseguindo entender o jeito murrinha que toda mulher tem e tentando entrar nos eixos. Porque o lado bom delas todo homem sabe. Já pensou besteira seu saidinho. Além do sexo, falo da generosidade e sensibilidade delas, sempre dispostas a ouvir nossas queixas e entender nossas fraquezas. É por isso que esta infinidade de obstáculos, não impede que devagarzinho abandone os pronomes eu e ela para falar um só: nós.

* Antes que me chame de canalha, a crônica foi autorizada por ela
* Da série "Velhas Crônicas"

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Filosofia de boteco


O amor é como o capim: você planta, cultiva, espera crescer, depois vem uma vaca e acaba.

Por que não gosto de psicólogos, arquitetos e advogados?

Sujeito que pensa que sabe escrever é pior do que o pobre coitado que não sabe. Por isso, detesto ter que entrevistar psicólogos, arquitetos e advogados. Na minha modesta opinião, estas categorias lideram o ranking dos pedantes que pensam que sabem escrever. Já teve arquiteta que pediu para “dar uma olhada” no meu texto e trocou “é” por “eh”. Agora, olha só a resposta de um profissional destes a um texto que encaminhei para “análise”. Uma verdadeira aula de concordância e pontuação. Realmente “exclarecedor.”

“Ao lermos o texto, percebemos que em alguns parágrafos ficou um pouco confusa as informação.Com isso, realizamos alterações no texto, as quais, julgamos importante para o exclarecimento do assunto em questão.”

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sexo por R$ 5. Prostitutas reclamam

Recomeço de férias é sinônimo de muito trabalho. Hoje peregrinei por centros terapêuticos, Ministério Público, Centro de Apoio Psicossocial (Caps), enfim, boa parte da rede que trabalha pelos dependentes químicos. Nestas andanças, descobri uma situação que se não fosse melancólica seria irônica. Prostitutas estão reclamando da concorrência desleal trazida pelo crack. Nas chamadas “pedreiras” de Lajeado (RS) – pontos onde se consome e vende a pedra – meninas fazem parte do “pacote de prazeres.” Tudo pela pedra. Sem precisar pechinchar, o cliente paga R$ 5 e sacia o prazer mais antigo dos homens – sem camisinha, é claro. As profissionais do sexo reclamam da desvalorização da profissão. Quem tem juízo reclama da desvalorização da vida.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Poema em Linha Reta por Paulo Autran

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Palanque dos miseráveis

Na última segunda-feira, por uma destas provas inexplicáveis de amor, estive pela primeira vez na minha vida em uma fila de INSS. Todo mundo sabe a condição da maioria das pessoas que precisam recorrer a este tipo de serviço público. Velhos, mulheres com criança no colo, pessoas de muletas, homens desiludidos aglomeram-se durante horas, uns atrás dos outros, à espera, muitas vezes, da promessa de serem atendidos em outro dia. Mas uma coisa é você saber e a outra é estar no meio do caos.

Como ia explicando no início do texto, durante uma hora estive em posição de igualdade, ou seria desigualdade, com o pessoal da fila. Das 7h às 8h esperei, do lado de fora, o horário de atendimento começar. Depois de 20 minutos, chega um senhor de cabelos grisalhos e começa a distribuir folhetos para as pessoas. Pensei que era um destes lunáticos tentando converter ovelhas para seu rebanho. Mas para minha surpresa, e alívio, não era.

O homem de cabelos grisalhos estava de manhã cedo, na fila do INSS, distribuindo folhetos com críticas às altas taxas tributárias cobradas no país. Com uma pasta já gasta, o velho homem de fisionomia cansada, ficou ao lado da fila até as portas abrirem e entrarmos no prédio. Apesar da pouca atenção das pessoas - mais preocupadas com suas perícias, benefícios e doenças – aquele senhor fez da fila do INSS seu palanque e deu uma aula de cidadania. Ao sair disse: “Minha parte eu fiz, se as pessoas não estão preocupadas, paciência.”

O que fez um homem de cabelos brancos ir para a fila do INSS e discursar sobre a alta carga tributária? O que fez um senhor já “cinqüentão” abraçar um problema do país? Talvez ali, em meio aos seus, seja o único lugar que este cidadão tenha voz. Naquele cenário esquecido, onde a dor e humilhação prosperam, um homem cumpriu seu dever de cidadão. Fez daquele espaço seu palanque.

Existe um mundo que você não enxerga. Ele não está em postinhos de gasolina, nem em um copo de cerveja, nem de frente ao quadro negro. Existe um mundo além destas linhas, onde a esperança se esvai em cada lágrima e que nem você e nem eu conhecemos. Há vida além dos muros da indiferença. Tá na hora de acordar.

* Da série "Velhas Crônicas"

A democracia de Saramago

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Irmão, Irmãos

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,

o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
* Ao meu irmão e "diretor de arte" do blog, Felipe Drews.

sábado, 22 de agosto de 2009

Maria Bethânia/Jeito estúpido de te amar

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Bemdito Sejas

"Bemdito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dôr,
Estremecendo, acórda...

A minha dôr é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e chóro amargamente;
Mas a dôr, indiferente,
Continúa...

Então,
Febríl, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
- E a minha dôr adormece,
E o leão é socegado.

Quanto mais bêbo mais dórme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

- Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!"

António Botto, in 'Canções'

O desalento do Senador

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“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertold Brecht

Um olhar


"Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro."

José Saramago

Efeito Gripe A


Estou na finaleira das minhas férias e hoje tem um churrasco regado a carne e cerveja na casa dos meus pais. A “justificativa” é a despedida de um colega de trabalho do meu pai que vai seguir outros rumos na carreira. Até aí tudo bem. O problema é que o homenageado não vem. Com uma gripe forte, o cidadão ficou com medo de ser a famigerada “gripe do porco” e avisou que vai ficar de “quarentena”. Resumo da ópera: será a primeira homenagem sem homenageado que eu participo. Particularmente achei a decisão do colega do meu pai uma bobagem. Se apenas limpando as mãos com álcool em gel o vírus já morre, imagina forrando o sangue com álcool!?

Um sábio disse


"Álcool, a solução e a causa de todos os problemas."

Homer Simpson

domingo, 16 de agosto de 2009

O galã e a má sorte

O fato abaixo aconteceu na minha cidade natal, Cachoeira do Sul, em uma noite quente de inverno. A história, segundo o meu pai, é verídica e comprova a máxima que cachorro ovelheiro só matando.

O sujeito metido a conquistador estava longe de casa e da esposa. Logo, não deixou passar a oportunidade para colocar em prática seus métodos de conquista. Focou no alvo e lá foi ele destrinchar o rosário para uma morena das coxas grossas. Em um barzinho à meia-luz, música de fundo, drink aqui e acolá, o sujeito enfim entrou no psicológico da tal morena das coxas grossas.

Até aí tudo caminhava conforme planejado, afinal nosso galã tinha fé no taco. O que ele não contava era com a peça pregada pelo destino. Enquanto mantinha o foco no decote da morena das coxas grossas, nosso galã de garbo e elegância perdeu o foco do seu celular, e distraidamente pressionou a tecla que discava automaticamente para a esposa.

Sem perceber o acontecido, o sujeito continuou com as conversinhas ao pé do ouvido da morena das coxas grossas, tal e coisa. Tudo acompanhado “ao vivo” pela esposa que permaneceu de ouvidos atentos do outro lado da linha. Parece que o galã está até agora no MSN tentando desfazer a “má impressão”.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

Álvaro de Campos

Eles podem matar

Desde a adolescência achei que lidava bem sob pressão. A coitada da minha irmã estudava que se matava e na hora das provas no colégio era branco total. E eu, que sempre fui vadio pro estudo, me dava bem frente aquele leito de perguntas. Assim seguiu na faculdade, no trabalho e por aí afora. Mas um dia isso tudo mudou. Um dia eu fraquejei.

No jornal nós temos as famigeradas bombonas d’água. Aquelas grandonas, devem ter uns 20 litros, acho eu. Pois bem, uma destas monstrinhas fica pertinho de onde sento. É ela que sacia a sede de toda a redação, da arte, da diagramação e do comercial, setores que ficam no segundo andar do prédio da Rede Vale de Comunicação. Pela preguiça característica que acompanha este corpo, sempre me esquivei de ter que trocar a bombona. Mas um dia, sem nenhum outro homem para as sedentas mulheres recorrerem, tive que encarar a missão. Foi o dia em que fraquejei.

Como um halterofilista russo, peguei a adversária pela cintura, respirei fundo e fiz o movimento para tascá-la dentro do orifício que recebe a bombona. Até aí tudo lindo. Mas no momento em que você tasca a bombona no orifício não pode recuar, sob pena de provocar um pequeno tsunami. Foi o que aconteceu comigo. Ao ver o pequeno orifício ir enchendo de água, pensei “não vai dar, não vai dar”!!! E, apavorado, não deu mesmo. Me senti como minha irmã quando se ferrava nas provas, mesmo depois de tanto esforço. Pior aconteceu com um amigo e colega meu, que não satisfeito em inundar parte da redação, derrubou a bombona no chão.

O nobre leitor pode até questionar, mas vocês dois – meu amigo e eu – são uns fracotes mesmo? Mas não se trata de força. Para trocar a bombona d’água é preciso muito mais que isto. Se você visse outro colega meu, de braço mirrado, voz quase indecifrável, devido à timidez, diria: “Esse sujeito não levanta esta ‘bombonona’.” No entanto, o tal sujeito é um dos melhores trocadores de bombona do jornal.

É meu caro, mas não precisa ser Incrível Hulk para saciar a sede da mulherada. É preciso sangue frio. Diante desta descoberta formulei a seguinte teoria: Quem troca tranquilamente uma bombona d’água poderia puxar o gatilho de uma arma. Em ambos os casos é preciso uma dose grande de frieza.

Por isso, se eu pudesse lhe dar um conselho seria para tomar muito cuidado com os trocadores de bombona. Eles podem matar.

* Da série Velhas Crônicas

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Poema em Linha Reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

Álvaro de Campos

Como eu não me importei com ninguém

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

Bertolt Brecht

Pinceladas do Drummond

"Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)"

Carlos Drummond de Andrade

Um estranho no ninho

“Deixe-me ir/Preciso andar/Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar/Se alguém por mim perguntar/Diga que eu só vou voltar/Depois que me encontrar...”

As ruas e suas esquinas, as casas e seus objetos têm alma. Experimente deixar a cidade onde você cresceu e voltar. Você vai saber do que falo. Em cada ruela habita uma lembrança da sua trajetória. Em cada objeto, uma história.

Morei 21 anos em Cachoeira do Sul, a 150 quilômetros de Lajeado. Portanto, é natural que sinta esta nostalgia cada vez que vou para lá. Aqui, apesar de saber de cor e salteado o mosaico de ruas e avenidas, por causa da minha atividade no jornal, não é a mesma coisa. Aqui, para mim, as ruas são apenas ruas. Se esta relação com as coisas já é diferente, imagina com as pessoas.

Mas de uns tempos pra cá, nem lá me sinto em casa. A distância, aliada ao tempo, faz a gente perder um fator indispensável para se sentir em casa: a intimidade. Não raro me sinto um peixe fora d’água com meus amigos. Nas conversas corriqueiras, aquelas sobre o dia-a-dia, sou um ouvinte. Resta falar sobre a crise internacional, futebol, planos para o futuro ou relembrar.
Na minha casa a situação não é muito diferente. Meus irmãos cresceram nestes quatro anos que estou fora. Meus pais envelheceram.

O beliche que dividia com meu irmão virou uma cama de casal. Sobrou um colchão para mim. A distribuição dos objetos mudou de uma hora para outra. As coisas mudaram. As pessoas mudaram. Eu mudei.

O meu roupeiro foi “invadido” por peças “alienígenas”. Quando vou para lá minhas roupas permanecem dentro da mala. Me sinto um turista na casa onde cresci. Vivo a crise dos 20 e poucos anos.

* Da série Velhas Crônicas

Em terra de cego quem tem frango é rei

“Ele subiu o morro sem gravata/dizendo que gostava da raça,/foi lá na tendinha, bebeu cachaça/e até bagulho fumou/Foi no meu barracão, e lá usou/lata de goiabada como prato/eu logo percebi é mais um candidato/ Às próximas eleições.../- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer/hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater.../Nesse país que se divide/em quem tem e quem não tem,/sempre o sacrifício cai no braço operário/Eu olho para um lado, eu olho para o outro/vejo desemprego e vejo quem manda no jogo...”

O Rappa e o malandro Bezerra da Silva bem que tentaram avisar, mas muitos não deram ouvidos. Passados 20 anos da Constituição de 1988, que restabeleceu as eleições diretas para presidente, ainda há quem que condicione seu voto a galinhadas regadas a cerveja ou à troca de pequenos favores. Para esses eleitores, vereador bom é aquele que percorre rua por rua para conferir quantas lâmpadas estão queimadas. Como se essa tarefa não competisse ao Poder Executivo.

Bom de voto é aquele que presta homenagem a gente morta, imortalizando o nome do sujeito em ruelas com esgoto a céu aberto. Candidato descente é aquele que facilita a liberação de alvará, mesmo que o imóvel esteja em desacordo com a legislação. Majestade é aquele que patrocina o clube do bairro, mesmo que o lugar careça de áreas de lazer.

Eleitor esperto é aquele que pensa nas suas necessidades em detrimento das carências coletivas. Eleitor safa faz campanha para o sujeito em troca de um CC. Eleitor consciente vota no cara legal, no amigo, no famoso, na gostosa, no bonito, no cantor, no homem da TV, no humilde, no Maravilha, na Gretchen, na Cadilac, no Rei do Povo.... É. Burro sou eu.

* Da série Velhas Crônicas

O cuspidor de vento

O aquecimento global é um fato noticiado há muito tempo pelos meios de comunicação. Todo mundo já ouviu dizer que as temperaturas no mundo estão cada vez mais altas. O inverno praticamente virou uma estação figurativa no ano. Faz calor praticamente o ano todo. Não na redação do jornal O Informativo.

Há mais de um ano o local foi tomado por um vento gélido, que fez despencar a temperatura. A mudança climática obrigou os mais sensíveis a seguirem um antigo conselho de mãe e sempre levarem um agasalho antes de sair de casa. No mundo real regatas e camisetas, na redação moletons e jaquetas.

A mudança no clima do planeta é decorrente das mãos do homem. Efeito estufa, corte de árvores, poluição... Na redação do jornal também. Com o intuito de amenizar o efeito provocado pelas altas temperaturas deram vida a um monstro cuspidor de vento.

A tal criatura têm aliados e inimigos. Ambos disputam uma cruzada pelo controle do famigerado monstrengo. Os aliados querem transformar a redação em uma espécie de Cambará do Sul, sem os canyons. Os inimigos teimam em atacar a boca de gelo, mesmo que para isso tenham que enfrentar novamente os efeitos do aquecimento global.

A disputa se concentra em uma varinha mágica. Dela sai todo o poder que controla a fera. Vindo da porta do banheiro o gladiador Emilio Rotta é um dos mais fervorosos defensores do cuspidor de vento. Junta-se a ele a leal Helena Baségio. No exército oposto a liderança é da inflexível Carine Schwingel, que jura se vingar da fera que a expulsou de sua pequena ilha. Para isso conta com o apoio da donzela Josiane Weschenfelder. Mas a líder rebelde pode perder o apoio de sua aliada, que estaria de casamento marcado com o temível Rotta.

Neste fogo cruzado quem sofre é sir Ermilo Drews, castigado pelos poder da fera e pela disputa pela varinha magia. Quase sem voz, a vítima indelével do cuspidor de vento tem um único pensamento: maldito ar-condicionado.

* Da série Velhas Crônicas

Violência, não!

Não, não é cansaço... É uma quantidade de desilusão
Álvaro de Campos

Uma luz forte o cegava e o frio daquela sala branca o fazia tremer. O lugar era bem diferente de onde estivera minutos antes. No útero, era aquecido e confortável, não sentia fome, estava protegido de luzes fortes, e embalado pelo som constante do coração da mãe. Mas teve que nascer. Foi a primeira provocação. Nem aprendera a falar ou caminhar e foi separado da mãe. Era o fim de uma tal de licença maternidade. Não entendia bem o que isto significava. Só sabia que precisava passar o dia inteiro com pessoas que nunca havia visto nos seus quatro meses de vida. Choramingou, mas não passou disto. Afinal, não era de se queixar.

Anos depois, na escola, as provocações viraram rotina. Resistiu a todas. A professora que o chamava de burro quando gaguejava na leitura o abalou. Sim, o abalou. Mas não o fez desistir. Afinal, ele era duro. Aguentava tudo calado. Os apelidos na escola, o ranço do pai, o namorado da irmã também passaram sem que pestanejasse.

Aos 17 anos, fruto da escola pública, queria cursar Jornalismo em uma universidade pública. Não conseguiu. Entrou em uma privada. Precisava de um emprego. Arrumou um subemprego. Precisava de auxílio para pagar a faculdade. Conseguiu um financiamento que segue até hoje. Passou anos ouvindo falar em possibilidades, em como seria uma vida feliz. Queriam-no casado, fútil, cotidiano e tributável? Queriam-no o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Talvez, se fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade, pensou. E assim foi.

Arrumou um emprego. Encontrou uma mulher. Vieram de arrasto o projeto da casa própria, o aluguel, mais contas e as dívidas. Vieram aspirações, obrigações, frustrações, culpa e desilusão. Vieram pessoas com excesso de vaidade, poder em demasia, dissimulação, verdades pré-fabricadas, mentiras e intolerância.

Para completar, ouvira na televisão que aquela dívida que tinha no banco não servira para nada. “Antes tivesse investido na poupança do que no diploma”, falou consigo. O descontentamento diante de tantas provocações lhe saltava na cara. Vieram até ele e lhe disseram que tudo ia se arrumar. “Deus lhe ama”, outro gritou. Já ouvira coisas do tipo, mas desta vez estava disposto a acreditar. Estava disposto a tudo, menos a agüentar mais provocações. Mas esta era a rotina de sua vida.

Na milésima provocação, levantou da cadeira, alterou a voz e, com o dedo em riste, avisou:

“Pra mim chega.”

E ouviu espantado, cochichos, pessoas horrorizadas com a atitude dele. Elas diziam:

“Violência, não!”

*Baseado e com trechos do texto Provocações, de Luiz Fernando Veríssimo, e do poema Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos.