sábado, 1 de maio de 2010

Entropia, Pensamento Acelerado e Jornalismo

Está lá no dicionário que entropia significa falência ou morte do sistema. Outro conceito detalha que é uma medida do grau de desorganização que pode levar à falência de um sistema. Pois garanto: sou um entropiado.

Sempre fui um sujeito desorganizado. Quando se é criança, calçado fora do lugar, cueca atirada embaixo do chuveiro, casaco sobre o sofá, tudo isso é natural. O problema é quando isso vira rotina na vida adulta e, torna-se grave mesmo, quando piora. Quem conhece a minha pilha de louça para lavar, sabe bem do que estou falando.

Mas o meu grau de desorganização pode ser conferido pela minha mesa de trabalho. Ontem, mesmo, um colega teve que empilhar meia tonelada de papel para encontrar um celular soterrado pela minha pequena montanha de entulho. Semelhante ao que vivi durante os quatro meses que tive que escrever minha monografia, no nem tão distante ano de 2004. No centro da escrivaninha: o computador e eu. Ao redor: pilhas e pilhas de rascunhos, citações, livros, comida, água...

E o meu grau de desorganização não se resume a pilhas de papel. Sempre escrevo as minhas entrevistas em um arquivo, inicio o texto em outro, termino em outro documento e, por último, salvo num outro. Nesta peregrinação devo ter dezenas de milhares de arquivos de texto no meu computador. E a quantidade de janelas abertas ao mesmo tempo? Parece até que acessei um site pornográfico. É janela pra tudo quanto é lado. Com tanta informação circulando, falta espaço no meu cérebro para coisas mundanas, como saber o lugar onde deixei a chave de casa – já perdi umas cinco vezes o molho de chaves.

Os meus colegas e a minha mulher acham que é coisa de porco, desleixo, mas juro que não é. A minha desorganização é fruto da minha entropia cerebral. Durante um segundo chego a pensar três coisas ao mesmo tempo – também, tem gente que me tira pra oráculo. A minha mãe até chegou a pesquisar no Grão Mestre Google, que garante se tratar da Síndrome do Pensamento Acelerado, comum a jornalistas, escritores e gente do tipo.

Os sintomas da tal síndrome: irritabilidade, insatisfação existencial, dificuldade de concentração, déficit de memória, fadiga excessiva, sono alterado, dificuldade de extrair prazer nos estímulos da rotina diária, sentimento de insuficiência. Mas sou eu, minha gente!

O tratamento recomendado para que eu não permita a falência do meu sistema cerebral é a mudança do estilo de vida. Em resumo: mudar de profissão.

É, não vai ter jeito, meu cérebro vai fundir aos 40 anos mesmo.

Por Ermilo Drews

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A moral da minha mulher

Seguindo o debate sobre moral, meu caro. Quer um exemplo prático sobre como é difícil lidar com as diferenças de valores entre os sujeitos. Pois bem, ontem no final do expediente tive a infeliz ideia de tomar UMA cerveja com um colega de trabalho. Pensei cá com meus botões: não vou avisar a Lê. É só uma cerveja. Se eu avisar, ela vai me encher.

Mas nem bem havia esquentado a cadeia do bar e o destino me pregou uma peça. Toca o celular e eu:

- Fudeu - era minha muler.

Bem, fiz o que qualquer homem macho com juízo, casado com uma mulher facão sem cabo, faria: menti. Levantei da cadeira e procurei um lugarzinho bem calmo pra mentir.

- Oi, Lê. Estou saindo agora do jornal e vou tomar uma cerveja com o Paulinho. Não quer chegar aqui no bar ao lado do jornal?

Ela:

- Está saindo agora!? Pois eu estou te vendo há uns bons minutos parado aí no boteco. Seu mentiroso, @*XJSJDJDjh, ISUI*&@%$X...

Viram! Para mim uma mentirinha não tem o peso que tem para a minha mulher facão sem cabo. São por estas diferenças e pela intolerância diante delas que as guerras acontecem!

Por Ermilo Drews

Ética, moral e Jornalismo

"Talvez um olhar retrospectivo nos mais de dois mil anos passados na inútil tentativa de encontrar um fundamento sólido para a moral nos leve a pensar que não existe nenhuma moral natural, independente dos preceitos humanos, mas que ela é simplesmente um artefacto, um meio inventado para melhor dominar o egoísta e malvado género humano."

Arthur Schopenhauer

A única coisa que prestou na minha aula de Filosofia na universidade foi o debate sobre ética e moral. O debate é tri louco, deixa o sujeito piradinho, mas como disse nosso amigo Schopenhauer, no que eu concordo com ele, os valores que carregamos não são nossos propriamente ditos, como acontece com nossos instintos, como a ereção, por exemplo. O nosso caráter é adquirido a partir daquilo que vivemos e, portanto, todos os preceitos morais, a constituição, as religiões são fruto dos valores que a sociedade considera como aceitos para aquela época. Obviamente estes valores mudam com o passar dos séculos e são encarados de maneira diferente de sujeito para sujeito.

No Jornalismo, a gente esbarra em valores morais o tempo todo. Ontem mesmo passei por uma situação destas no trabalho. Não vou abrir o assunto por ser de economia interna e porque a reportagem sobre o fato que ocasionou o debate ainda não foi publicada – estou exercendo um valor moral meu, hehe. Mas basicamente o debate se concentrou na dignidade humana. Mas o que é indigno pra mim não o é pra o colega do lado. Bem, gosto de pensar, copiando na cara dura algo que li há pouco tempo, que a dignidade humana não será o modo ético como o ser humano ver-se a si próprio? Em resumo, o que não quero pra mim ou pros meus, não quero para o próximo.

Por mais que existam códigos de ética, leis e o escambau há situações nas quais um jornalista coloca em xeque os seus valores. Nesta hora recomendo o bom senso. O problema é quando o bom senso de um entra em choque com o bom senso do outro. Daí meu filho, exercite o seu poder de retórica para dormir em paz com a sua consciência, mesmo que ela seja fabricada.

Por Ermilo Drews

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Luxúria

"Entregou-se tanto ao vício da luxúria
que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer,
para cancelar a censura que merecia."

Dante Alighieri, em Inferno

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Puta literária

Sim meu querido, único e solitário leitor, me entreguei às teias do capitalismo. Virei uma puta das letras. Agora só escrevo se pagarem. Promiscuidade pura. Não importa o quê nem pra quem. Entrando no caixa é o que importa. Este, talvez, seja o principal motivo do meu afastamento. Embestei de que preciso ganhar dinheiro e para isso vale tudo, exceto dar a bunda. Esse tipo de coisa só se faz depois do primeiro exame de próstata.

Pois bem, neste período de afastamento fiz coisas aparentemente absurdas. Acredite quem quiser, mas cometi o maior sacrilégio que um homem, de carne, osso e brio pode fazer. Eu CASEI. Sim, casei, com direito a padre, noiva, aliança e bolo. Talvez por isso tenha embestado em ficar rico...

Mas também estou prestes a concretizar outra proeza de um homem macho. Não, não se trata de emprenhar minha Lê. Estou escrevendo um livro. Um livro encomendado, afinal já disse que virei a puta das letras. Agora só falta mesmo plantar um pé de bananeira e embuchar a nega véia para me tornar um Homem com H maiúsculo.

E nesta orgia neoliberal literária reneguei minha paixão. Virei uma puta letrada profissional. Perdi um dos principais motivos que me fazem abrir os olhos todas as manhãs: o prazer pelo ofício. A vontade se foi e eu endureci. Não seu safado, não se trata de uma ereção. Eu me tornei uma pessoa dura, pragmática e sem paciência para fazer aquilo que sempre foi o tesão da minha alma: escrever. Simplesmente cansei.

Tornei-me um burocrata da vida. Um servidor público. Um tecnocrata. Tudo aquilo que me revirava o estômago tornou-se minha rotina. Quando era adolescente pensava que seria adulto quando tivesse uma carteira cheia de cartões. Hoje adulto percebo que a gente perde a graça quando inventa um monte de reuniões e obrigações. A gente se torna duro, com outros e, principalmente, consigo.

O meu retorno a você, meu querido, único e solitário leitor é tão vil quando minha promiscuidade literária. Precisava desabafar. Não existe cerveja suficiente para acalmar um cérebro apressado e um coração triste. Cansei. A gente cansa de ser o que é, e não precisa ser adolescente para sentir isso. Cansei de ser uma pessoa dura, pragmática, sem fé. Enchi o saco de gente assim. Espero que esse retorno seja um recomeço.

Eu preciso de um recomeço.

Por Ermilo Drews

sábado, 13 de março de 2010

Culpa III

O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros.

Confúcio

Culpa II

Para os que não conseguem governar a própria casa nem os povos, uma boa desculpa é dizer que estes são ingovernáveis.

Benavente y Martinez