segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Palanque dos miseráveis
Na última segunda-feira, por uma destas provas inexplicáveis de amor, estive pela primeira vez na minha vida em uma fila de INSS. Todo mundo sabe a condição da maioria das pessoas que precisam recorrer a este tipo de serviço público. Velhos, mulheres com criança no colo, pessoas de muletas, homens desiludidos aglomeram-se durante horas, uns atrás dos outros, à espera, muitas vezes, da promessa de serem atendidos em outro dia. Mas uma coisa é você saber e a outra é estar no meio do caos.
Como ia explicando no início do texto, durante uma hora estive em posição de igualdade, ou seria desigualdade, com o pessoal da fila. Das 7h às 8h esperei, do lado de fora, o horário de atendimento começar. Depois de 20 minutos, chega um senhor de cabelos grisalhos e começa a distribuir folhetos para as pessoas. Pensei que era um destes lunáticos tentando converter ovelhas para seu rebanho. Mas para minha surpresa, e alívio, não era.
O homem de cabelos grisalhos estava de manhã cedo, na fila do INSS, distribuindo folhetos com críticas às altas taxas tributárias cobradas no país. Com uma pasta já gasta, o velho homem de fisionomia cansada, ficou ao lado da fila até as portas abrirem e entrarmos no prédio. Apesar da pouca atenção das pessoas - mais preocupadas com suas perícias, benefícios e doenças – aquele senhor fez da fila do INSS seu palanque e deu uma aula de cidadania. Ao sair disse: “Minha parte eu fiz, se as pessoas não estão preocupadas, paciência.”
O que fez um homem de cabelos brancos ir para a fila do INSS e discursar sobre a alta carga tributária? O que fez um senhor já “cinqüentão” abraçar um problema do país? Talvez ali, em meio aos seus, seja o único lugar que este cidadão tenha voz. Naquele cenário esquecido, onde a dor e humilhação prosperam, um homem cumpriu seu dever de cidadão. Fez daquele espaço seu palanque.
Existe um mundo que você não enxerga. Ele não está em postinhos de gasolina, nem em um copo de cerveja, nem de frente ao quadro negro. Existe um mundo além destas linhas, onde a esperança se esvai em cada lágrima e que nem você e nem eu conhecemos. Há vida além dos muros da indiferença. Tá na hora de acordar.
* Da série "Velhas Crônicas"
Como ia explicando no início do texto, durante uma hora estive em posição de igualdade, ou seria desigualdade, com o pessoal da fila. Das 7h às 8h esperei, do lado de fora, o horário de atendimento começar. Depois de 20 minutos, chega um senhor de cabelos grisalhos e começa a distribuir folhetos para as pessoas. Pensei que era um destes lunáticos tentando converter ovelhas para seu rebanho. Mas para minha surpresa, e alívio, não era.
O homem de cabelos grisalhos estava de manhã cedo, na fila do INSS, distribuindo folhetos com críticas às altas taxas tributárias cobradas no país. Com uma pasta já gasta, o velho homem de fisionomia cansada, ficou ao lado da fila até as portas abrirem e entrarmos no prédio. Apesar da pouca atenção das pessoas - mais preocupadas com suas perícias, benefícios e doenças – aquele senhor fez da fila do INSS seu palanque e deu uma aula de cidadania. Ao sair disse: “Minha parte eu fiz, se as pessoas não estão preocupadas, paciência.”
O que fez um homem de cabelos brancos ir para a fila do INSS e discursar sobre a alta carga tributária? O que fez um senhor já “cinqüentão” abraçar um problema do país? Talvez ali, em meio aos seus, seja o único lugar que este cidadão tenha voz. Naquele cenário esquecido, onde a dor e humilhação prosperam, um homem cumpriu seu dever de cidadão. Fez daquele espaço seu palanque.
Existe um mundo que você não enxerga. Ele não está em postinhos de gasolina, nem em um copo de cerveja, nem de frente ao quadro negro. Existe um mundo além destas linhas, onde a esperança se esvai em cada lágrima e que nem você e nem eu conhecemos. Há vida além dos muros da indiferença. Tá na hora de acordar.
* Da série "Velhas Crônicas"
Irmão, Irmãos
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
* Ao meu irmão e "diretor de arte" do blog, Felipe Drews.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
* Ao meu irmão e "diretor de arte" do blog, Felipe Drews.
sábado, 22 de agosto de 2009
Bemdito Sejas
"Bemdito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!
Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dôr,
Estremecendo, acórda...
A minha dôr é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.
Canto e chóro amargamente;
Mas a dôr, indiferente,
Continúa...
Então,
Febríl, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
- E a minha dôr adormece,
E o leão é socegado.
Quanto mais bêbo mais dórme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!
E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!
Grande vida!
- Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!"
António Botto, in 'Canções'
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!
Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dôr,
Estremecendo, acórda...
A minha dôr é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.
Canto e chóro amargamente;
Mas a dôr, indiferente,
Continúa...
Então,
Febríl, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
- E a minha dôr adormece,
E o leão é socegado.
Quanto mais bêbo mais dórme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!
E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!
Grande vida!
- Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!"
António Botto, in 'Canções'
O desalento do Senador
“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”
Bertold Brecht
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